Uma terceira Margem

Paisagem – Memória

A origem simbólica do meu trabalho está nas margens do Rio São Francisco, território que atravessa diferentes fases da minha vida. Estar junto ao rio,  ou dentro dele, é ancorar-me no presente e estabelecer uma conexão profunda com a natureza. Há ali algo de sagrado que ultrapassa a visualidade e instaura um campo de experiência sensível.

A paisagem do rio, com suas margens mutantes e seus ciclos, desperta em mim um estado meditativo que reverbera em toda a obra. É nesse fluxo que busco criar uma “terceira margem”: não a representação de um lugar real, mas a construção de um espaço outro, subjetivo — uma paisagem-memória suspensa no tempo.

As pinturas surgem da sobreposição de camadas de óleo e solventes que escorrem pelo suporte, gerando transparências em contraste com pinceladas densas. Essa materialidade se converte em metáfora da memória, dos afetos e da espiritualidade. A gestualidade excessiva que dá corpo às imagens evoca a exuberância barroca e a desordem fértil das matas ciliares.

De perto, revelam-se texturas, formas irregulares e camadas sobrepostas; de longe, a cor se irradia e domina o espaço.

Este projeto nasce do diálogo contínuo, que tem ampliado os sentidos da obra, tanto em seus aspectos plásticos quanto nas conexões com questões ambientais e experiências de espiritualidade.

Pedro Kubitschek

1984, Belo Horizonte - desenvolve uma poética marcada por sua relação com o Rio São Francisco, onde memória, tempo e transformação se entrelaçam. Formado em Medicina e Design Gráfico, articula arte e ciência em uma prática que investiga a paisagem como território simbólico em constante metamorfose. Em sua pesquisa, a pintura se torna um campo de experimentação, percepção e reflexão sobre as relações entre natureza, experiência e memória.


As obras são construídas em camadas de tinta e solvente, com muitas sobreposições. O tempo também faz parte do processo: a artista pinta, deixa a tinta secar, espera e cobre novamente. Cada camada guarda vestígios das anteriores e transforma a superfície em um campo de memória e passagem do tempo.

Cápsula da Memória de um Rio é um projeto que transforma a pintura em convite à imaginação, à reflexão e ao encontro com os rios. Inspirado pelas margens do São Francisco, aproxima a arte do cotidiano e chama atenção para os cursos d’água — inclusive os urbanos, muitas vezes invisibilizados —, valorizando sua relação com a paisagem, a memória e a vida coletiva. Ao unir arte, educação ambiental e participação comunitária, o projeto incentiva a reconexão com essas águas e o desejo de cuidar delas.

KUBITSCHEK, Pedro. Correnteza que atravessa. 2026. Óleo sobre tela, 120 × 120 × 4 cm.